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Como anda a comunicação na era digital

Desde o ano passado, o Arapyaú tem olhado para o campo da comunicação com mais atenção. Notamos que há uma transformação gigantesca em curso, mudando a forma como a informação circula, a maneira como as pessoas e as organizações se comunicam e com impactos importantes para a temática da sustentabilidade.

Essa transformação foi impulsionada pela expansão dos computadores pessoais, a partir da década de 1990, pela disseminação da internet, nos anos 2000, e, mais recentemente, pelo surgimento das mídias sociais e pela adoção de dispositivos móveis, como tablets e smartphones. O avanço da tecnologia está mudando de maneira inesperada a forma como as pessoas se informam e se comunicam. Email, Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp – plataformas que hoje conectam bilhões de cidadãos em todo o mundo e pelas quais a informação circula em tempo real não passavam de sonho futurista. A emergência das redes sociais pôs em xeque o modelo tradicional de produção e disseminação de informações. Saímos de um mundo no qual a comunicação tinha mão única – poucos emissores para uma multidão de receptores – para um mundo de comunicação em duas vias, onde qualquer um pode ser produtor e distribuidor de conteúdo.

A circulação de informações no mundo hiperconectado traz desafios inéditos para as organizações de comunicação (que tiveram seu modelo de negócios ameaçado), para instituições de todos os setores que precisam disseminar suas mensagens e para o cidadão interessado em ter voz ativa na sociedade.

Em muitas das nossas conversas de happy hour e reuniões no Arapyaú, o tema da comunicação surge como sendo essencialmente importante para fazer com que determinados assuntos cheguem às pessoas, que toque, que mobilize.

Começamos então com uma pesquisa dessas novas iniciativas e fomos nos aproximando de pessoas que estão com a mão na massa para entender de perto esse novo movimento. Nessas conversas, sentimos a necessidade de ter por escrito um documento que sintetizasse o que está acontecendo com a comunicação pós-internet. O resultado, você encontra aqui.

O Arapyaú tem como missão contribuir para articular a transição para uma sociedade mais justa, solidária e sustentável. Sua temática é a da sustentabilidade, entendida em seus pilares econômico, ambiental, social e político. A promoção de um Brasil mais sustentável envolve também um desafio de comunicação, na medida em que é preciso – e urgente – informar e mobilizar a sociedade para a relevância desse tema.

A nossa ideia é compartilhar esse texto com quem estiver interessado e continuamos na escuta para entender pra onde o mundo caminha.

Os novos (e muitos) caminhos da comunicação

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O jornalismo pode ser ativista? Dá pra fazer jornalismo investigativo com poucos recursos? As novas mídias estão matando ou transformando o jornalismo? E como elas podem ampliar o alcance de temas que os veículos tradicionais não cobrem – ou cobrem pouco? De onde virá a inovação na comunicação? Essas foram algumas das questões calorosamente debatidas na primeira happy hour do Arapyaú neste ano, que aconteceu no dia 24/02 no escritório do instituto em São Paulo, com transmissão via internet.

Seis convidados falaram dos seus projetos e das iniciativas de jornalismo digital ou mídia ativismo que colocaram de pé. A maioria, jornalistas que trabalharam em grandes jornais ou revistas pelo país e agora estão em escritórios menores, às vezes no computador de casa mesmo, ou em qualquer lugar onde a notícia está.

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Felipe Seligman – que trabalhou na Folha de S.Paulo por sete anos – começou apresentando o Brio, um site de grandes reportagens que em março publicará sua primeira matéria. A proposta do Brio (uma empresa) é provar que é possível ser lucrativo fazendo conteúdo aprofundado – e multimídia – na internet. Com textos escritos por jornalistas de todos os cantos do planeta, o Brio vai publicar e vender histórias aprofundadas, de assuntos que explicam a realidade, sobre os mais variados temas. Nos Estados Unidos, esse formato é chamado de longform. O Brio tem um modelo de negócios de start ups, comum entre as empresas de tecnologia, e surgiu de uma associação entre jornalistas com experiência em grandes veículos com desenvolvedores de internet – um casamento cada vez mais comum em iniciativas que buscam trabalhar comunicação de forma inovadora.

Natalia Viana foi a responsável pela apresentação da Agência Pública, que faz jornalismo investigativo sem fins lucrativos. A Pública funciona como uma agência de notícias, a exemplo da Reuters, mas sempre com grandes reportagens. Criada em 2011, nasceu com a missão de manter vivo e ampliar o alcance do jornalismo investigativo no Brasil, um formato de reportagens que vêm se tornando cada vez menos presente na imprensa tradicional. Entre seus “eixos investigativos” estão a crise urbana, a violência policial e a Amazônia. Em 2014, a Pública fez o Truco! uma checagem dos dados mais relevantes apresentados pelos presidenciáveis na campanha do ano passado. Em alguns casos, pediam explicações para sobre dados importantes aparentemente insustentáveis, e a isso chamaram de Truco. Cada checagem foi classificada com uma carta, de acordo com o resultado da apuração. O “Blefe” era uma informação falsa; “Não é bem assim”, quando era distorcida; “Tá certo, mas peraí”, quando estava correta, mas merecia ser contextualizada; e “Zap”, para uma informação correta e relevante. Foi uma maneira divertida de tratar de um assunto muito sério.

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A Ponte que nasceu há um ano e está com o site há seis meses, foi apresentada pela Carolina Trevisan. É um grupo de jornalistas que se dedicam a falar de justiça e direitos humanos. Suas reportagens falam de racismo, violência policial e direitos da mulher, por exemplo, sendo que o grupo tem se dedicado também a formar novos jornalistas nessas temáticas. Seu trabalho de maior destaque foi a cobertura da desocupação de um prédio na Avenida São João, em setembro do ano passado. A Ponte foi o único veículo de imprensa a acompanhar de dentro da ocupacão os embates entre a polícia e os sem-teto.

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O InfoAmazônia é um outro projeto inovador, de responsabilidade de Gustavo Faleiros, e tem como diferencial o “jornalismo de dados” – que é quando o foco do trabalho deixa de ser a busca pelo “furo” e passa a ser interpretar o que um certo fato pode realmente significar. Uma das formas mais interessantes de atuação do Inf consiste em articular comunidades para criar notícias usando tecnologia. O primeiro passo do trabalho é agregar dados brutos, às vezes distribuídos de graça pela NASA. Depois, reúnem informações sobre, por exemplo, o desmatamento na Amazônia, somam dados de trabalho escravo do Ministério do Trabalho e aí entra o trabalho de interpretação do que esses dados significam. A narrativa é construída com a utilização dessas informações brutas com a história das pessoas que vivem a realidade dos lugares. “A gente suja o sapato atrás da notícia, mas usando o GPS porque é muito mais fácil”, brincou Faleiros.

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Rafael Vilela, integrante da Mídia Ninja, apresentou o projeto A Conta da Água, que tem feito matérias profundas sobre o problema de seca no estado de São Paulo. Laura Capriglione, hoje na Ponte depois de 17 anos na Folha de S.Paulo, contou um pouco sobre como tem sido fazer essa cobertura numa “mídia alternativa”. O objetivo, segundo ela, é fazer grandes reportagens sem esquecer os valores clássicos do jornalismo: a apuração competente dos fatos, ouvir todos os envolvidos na história, a checagem de dados e a construção de narrativas envolventes.

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O papo dos convidados com a plateia mostrou que estamos passando por um momento muito intenso – e de grandes oportunidades – no universo da comunicação. Duas questões surgiram fortes no debate. Primeiro, a viabilidade financeira das iniciativas. Será possível sustentar o bom jornalismo com recursos da filantropia ou doações do público? Segundo, os limites entre o jornalismo e o ativismo. Como ampliar o alcance da cobertura de temas específicos sem ferir os princípios do jornalismo? Natalia Viana, por exemplo, ressaltou que a “causa” da Pública é o jornalismo, e não algum tema ou “bandeira”. Já Rafael Vilela vê jornalismo e mídia ativismo como complementares. E você, o que acha disso? Fique por perto que a conversa vai continuar.

Conheça:

http://brio.media/pt/

http://apublica.org/

http://ponte.org/

http://infoamazonia.org/pt/

https://medium.com/a-conta-da-agua

E se você não acompanhou a happy hour, assista o vídeo da transmissão: